segunda-feira, 4 de maio de 2015

O que é um português?

- (…) O que é um português?
A pergunta apanhou-me desprevenido. Hesitei:
- Bem, antes de mais, suponho, um europeu...
- Os portugueses, europeus? - Riu-se com mansidão. - Nunca foram. Não o eram antes e não o são hoje. Quando conseguirem que Portugal se transforme sinceramente numa nação europeia o país deixará de existir. Repare: os portugueses construíram a sua identidade por oposição à Europa, ao Reino de Castela, e como estavam encurralados lançaram-se ao mar e vieram ter aqui (Goa), fundaram o Brasil, colonizaram África. Ou seja, escolheram não ser europeus.

José Eduardo Agualusa, "Um estranho em Goa", Livros Cotovia/ Fundação Oriente

domingo, 29 de março de 2015

Farra do Boi

Em 1978, o jornal "A Bola" publicava a seguinte notícia acerca da Farra do Boi, no estado de Santa Catarina, Brasil. Volvidos 28 anos parece que pouco ou nada mudou, e a barbárie continua para gáudio de alguns.

“Pelo menos trinta bois já foram sacrificados este ano, nas localidades de Porto Belo e Governador Celso Ramos, com a «farra de boi», prática de origem açoriana, semelhante à «malhação de judas». Habitualmente realizada na Semana Santa pelas populações litorâneas de Santa Catarina, a «farra do boi», em vez de um boneco, tem como vítima o animal. Comprado pela comunidade ou doado por alguma individualidade local, o boi é perseguido até à morte.
Munidos de paus, pedras, açoites e facas – revela a Folha de S. Paulo – participam da «farra» homens, mulheres, velhos e crianças. Assim que o boi é solto, a multidão o persegue e agride incessantemente. O primeiro alvo são os chifres, quebrados a pauladas. Em seguida, o boi tem os olhos perfurados. A tortura só termina quando o animal, horas depois, já com vários ossos quebrados, não tem mais forças para correr às cegas, sendo então definitivamente abatido e carneado para um churrasco.
É uma farra meio bárbara.”


Jornal “A Bola”, 23/04/1987

quinta-feira, 26 de março de 2015

Como ser brasileiro em Lisboa sem dar (muito) na vista

Há uns anos, enviaram-me um texto publicado na revista “Viaje bem” (revista de bordo da VASP), de 1978. O texto, escrito por Ruy Castro, faz uma análise às diferenças do falar português de um e de outro lados do Atlântico.

                        Como ser brasileiro em Lisboa sem dar (muito) na vista

  Sim, eu sei que não será culpa sua, mas, se você desembarcar em Lisboa sem um bom domínio do idioma, poderá ver-se de repente em terríveis águas de bacalhau. Está vendo? Você já começou a não entender. O fato é que, como dizia Mark Twain a respeito da Inglaterra e dos Estados Unidos, também Portugal e Brasil são dois países separados pela mesma língua. E se não acredita, veja só esses exemplos. (...)
  Um casal brasileiro, amigo meu, alugou um carro e seguia tranqüilamente pela estrada Lisboa - Porto. quando deu de cara com um aviso: “Cuidado com as bermas”. Eles ficaram assustados - que diabo seria berma? Alguns metros à frente, outro aviso: “Cuidado com as bermas”. Não resistiram: pararam no primeiro posto de gasolina, perguntaram o que era uma berma e só respiraram tranqüilos quando souberam que berma era acostamento.
  Você poderá ter alguns probleminhas se entrar numa loja de roupas desconhecendo certas sutilezas da língua. Por exemplo, não adianta pedir para ver os ternos - peça para ver fatos. Paletó é casaco. Meias são peúgas. Suéter é camisola - mas não se assuste, porque calcinhas femininas são cuecas. (Não é uma delícia?) Pelo mesmo motivo, as fraldas de crianças são chamadas cuequinhas de bebé. Atenção, também para os nomes de certas utilidades caseiras. Não adianta falar em esparadrapo - deve-se dizer pensos. Pasta de dente é dentífrico. Ventilador é ventoinha. E no caso (gravíssimo) de você ter de tomar uma injeção na nádega, desculpe, mas eu não posso dizer porque é feio.
  As maiores gafes de brasileiros em Lisboa acontecem (onde mais?) nos restaurantes, claro. Não adianta perguntar ao gerente do hotel onde se pode beliscar alguma coisa, porque ele achará que você está a fim de sair aplicando beliscões pela rua. Pergunte-lhe onde se pode petiscar. Os sanduíches são particularmente enganadores: um sanduiche de filé é chamado de prego; cachorros-quentes são simplesmente cachorros. E não se esqueça: um cafezinho é uma bica; uma média é um galão e um chope é uma imperial. E, pelo amor de Deus, não vá se chocar quando você tentar furar uma fila e alguém gritar lá de trás: “O gajo está a furar a bicha!” Você não sabia, mas em Portugal chama-se fila de bicha. E não ria.
  Ah, que maravilha o futebol em Portugal! Um goleiro é um guarda-redes. Só isso e mais nada. Os jogadores do Benfica usam camisola encarnada - ou seja, camisa vermelha. Gol é golo. Bola é esférico. Pênalti é penálti. Se um jogador se contunde em campo, o locutor diz que ele se alejou, mesmo que se recupere com uma simples massagem. Gramado é relvado, muito mais poético, não é? (...)
  Para entender as crianças em Portugal, pedagogia não basta. É preciso traçar também uma outra lingüística. Para começar, não se diz crianças, mas miúdos. (Não confundir com miúdos da galinha, que lá são chamados de miudezas. Os miúdos de galinha portuguesa são os pintos.) Quando um guri inferniza a vida do pai, este não o ameaça com a tradicional “Dou-lhe uma coça!”, mas com “Dou-te uma tareia”, ou então com o violentíssimo “Eu chego-te a roupa à pele!
  Um sujeito preguiçoso é um mandrião. Um indivíduo truculento é um matulão. Um tipo cabeludo é um gadelhudo. Quando não se gosta de alguém, diz-se “Não gramo aquele gajo”. Quando alguém fala mal de você e você não liga, deve dizer: Estou-me nas tintas”; ou então: “Estou-me marimbando”. (...) Um homem bonito, que as brasileiras chamariam de pão, é chamado pelas portuguesas de pessegão. E uma garota de fechar o comércio é, não sei por quê, um borrachinho.
  Mas, o meu pior equívoco em Portugal foi quando pifou a descarga da privada do meu quarto de hotel e eu telefonei para a portaria: “Podem me mandar um bombeiro para consertar a descarga da privada?” O homem não entendeu uma única palavra. Eu devia ter dito: “Ó pá, manda um canalizador para reparar o autoclismo da retrete.”

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

"Sempre Ausente" - António Variações


Pobre Velha Música!

Enquanto arrumava papelada de uma gaveta, encontrei um postal de aniversário que me foi enviado em 1997 por um querido amigo e, com ele, um poema de Fernando Pessoa:

Pobre velha música!
Não sei porque me agrado,
Enche-se de lágrimas
Meu olhar parado.

Recordo outro ouvir-te.
Não sei se te ouvi
Nessa minha infância
Que me lembro em ti.

Com que ânsia tão raiva
Quero aquele outrora!
E eu era feliz? Não sei:
Fui-o outrora agora.

Pobre Velha Música! in “Cancioneiro”